Pequena descrição da cidade:
Rovaniemi é a capital e o centro mais comercial da Lapónia, localizada na Finlândia, próximo ao Círculo Polar Ártico.
Com cerca de 59.000 habitantes é a 13º município finlandês em população. Rovaniemi está situada entre a serra de Ounasvaara e Korkalovaara, sendo atravessada pelo rio Kemijoki e o seu afluente Ounasjoki.
A cidade é cercada pela floresta boreal e apresenta temperatura média anual de +0.2 °C, tendo registrado –47.5 °C, sua mínima absoluta, em 28 de janeiro de 1999.
Lidas estas informações, fomos preparados para enfrentar o frio polar da cidade.
Para ser sincera, talvez por já me ter habituado ao frio, ou, se calhar, por não ter sido um dos dias mais frios do ano, o choque térmico entre Oulu e Rovaniemi quase não se fez sentir.
A cidade é realmente pequenina e o único ponto de visita é realmente a morada do Pai Natal. E, para todos os que acham, tal como eu, que o Natal e capitalismo são sinónimos, ir visitar Rovaniemi é a “prova provada” da dita tese.
Em volta da casa onde “mora” o senhor de barbas brancas existe uma espécie de parque com actividades de desportos de neve (pagos a preço de ouro) como passeios de trenó puxados por renas ou por cães, um sem fim de lojas com tudo o que possam imaginar alusivo à época natalícia ou ao próprio local, restaurantes, etc.
Entrei em cada um daqueles edifícios à espera de encontrar um museu, um filme sobre a história da cidade, uma pessoa a apresentar um colóquio sobre a lenda do Pai Natal, qualquer coisa…. Mas não, tudo era comércio, dinheiro, compras! Eu sei que esta história de ser ali que habitava o senhor gordinho que dava prendinhas e não-sei-quê deve ser rentabilizada, mas a inexistência de um pouco de cultura à mistura fez-me uma certa confusão e acreditem que eu acho que a cidade ia ganhar muito com isso, mas isso sou eu que acho que o espírito natalício vai mais além de passar o American Express nas máquinas de pagamento.
Para conhecer o Pai Natal tínhamos que ir inscrever o nosso nome numa lista e esperar 2h pela nossa vez mas, felizmente, não tínhamos de pagar.
Na inscrição reparei num casal à nossa frente, que estava com a filha pequenina, e que a certa altura a senhora atrás do balcão lhes dá uma folha e diz: “A filha não pode ler!”
Curiosa, quando cheguei a minha vez li a folha. Os pais podiam comprar, na loja do edifício, um brinquedo aos filhos e pedir para quando chegasse a sua vez de visitar o Pai Natal este lhes entregar a prenda. Tudo pensado para facturar! E não vou tecer mais comentários sobre este acontecimento.
A nossa hora chegou e lá entramos novamente no edifício para ver o velhinho que nos fez sonhar na nossa infância. Uma fila interminável, com fotos nas paredes do percurso até à dita sala, com gente famosa que tinha visitado o senhor: Spice Girls, U2, etc, actores de Holywood e até presidentes de vários países. Mesmo antes de chegar a nossa vez, à porta da sala onde estava o Pai Natal, encontrava-se um senhor vestido com um rídiculo fato de doende (a sério, se eu fosse criança assustava-me com aquilo) cuja função era sorrir a toda a hora e conversar connosco, enquanto aguardava-mos que o concorrido barbas brancas estivesse livre.
Eu tenho desde pequena, feliz ou infelizmente, o hábito de analisar as pessoas enquanto elas falam: consigo captar todos os tiques e descodificar cada olhar, sorriso, etc. Isto para dizer que o doende enquanto fazia as perguntas mostrava-se excitadíssimo, arregalava os olhos, mantinha um enorme sorriso… Por outro lado, enquanto eles respondiam (sim, eu limitei-me a encostar-me a uma parede ao lado, porque não me apetecia conversar com uma pessoa programada para me entreter durante a espera) o seu sorriso apagava-se, e os seus olhos olhavam para a restante fila, certamente a pensar a quantas pessoas ainda teria que fazer as mesmas perguntas, completamente desligado do que o Zé Pedro, na sua simpatia, lhe respondia. Além de achar este um dos empregos mais estúpidos de sempre, considero que esta seria uma boa oportunidade de colocar um filme, ou documentário, sobre a lenda do senhor barbas… mas mais uma vez isto sou eu, que sei que o importante é entreter as pessoas com o fast-talk na era do fast-food.
O encontro com "o barbas" resumiu-se a ele perguntar-nos se estava tudo bem e a tirarmos uma foto (que se vendia no final do percurso, pois é claro!). Quando nos despedimos dele com um simples “Entao… Adeus!” eu pensei (mas mais uma vez, isto sou eu): Então tanta coisa para ver o homem e é assim? Ele tira uma foto e pronto?”
Permaneci perplexa a olhar para ele e perguntei:”Então nem me diz o que me vai dar no Natal?”, ao que o senhor, já preparado para fazer avançar a fila responde “Hmmm, não, é surpresa!”.
(Surpresa?? Pois, os meus papás não compraram o bonequinho na loja não foi? Até o doende teria uma resposta melhor! Nada satisfeita com a resposta não arredei pé e inquiri)
“Mas então eu venho até aqui para a sua resposta ser tão simples como «surpresa»?”
E sabem o que o barbas respondeu???? Não, e nem imaginam!
“Vou-te dar um namorado”
Bem, se à primeira resposta lhe faltou imaginação a esta extravasou-a!
Sim, e quem me conhece sabe que não ficaria calada com tal resposta, ao que retorqui: “Mas o senhor afinal dá prendas ou dá encargos?“
E o senhor riu-se imenso com a minha resposta e disse que eu era muito engraçada. E foi aí que eu tive muita pena das criancinhas que vi na fila que achavam que iam encontrar um senhor simpático, alegre, cheio de histórias para lhes contar, sim, porque sinceramente, até no NorteShopping já vi pais natal a desempenharem melhor o seu papel de alimentar fantasias infantis, que é isso que os pais natal devem fazer, mesmo que à sua frente estejam adultos de 20 anos, porque se eles estão ali, é porque ainda acreditam na magia do natal. Mas isto, não me canso de dizer, sou eu, que vim de uma geração que teve uma infância saudável e feliz e que ainda idealiza muitos dos sonhos de pequenino.
Apesar de tudo gostei de Rovaniemi. Gostei de ver renas ao vivo, gostei de ver uma cidade ainda mais coberta de neve do que Oulu, cheia de pinheiros cobertos de neve, gostei de ver os olhares de exaltação das crianças perante a placa “Santa Claus is here!”, gostei da loja dos postais com um correio ao lado, apesar de ser comércio na mesma é um tipo de comércio que permite que as pessoas escrevam cartas (coisa já tão rara!) e dediquem algum tempo e algumas palavras a quem está longe e não teve oportunidade de fazer a visita. Eu fiz isso! Enviei um postal aos meus pais e ao meu irmão com palavras que para mim representam a época natalícia: a ânsia de estarmos de novo reunidos. Mas isto sou eu que tenho uma família que vale mais que todos os American Express do mundo.
E já me alonguei muito, mas realmente, este dia fez-me reflectir sobre muitas coisas, que gostei de partilhar convosco.
Como já disse, apesar da decepção do barbas (não merece o nome de Pai Natal) e do parque em volta contruído, foi um dia passado na companhia de pessoas que eu gosto muito e sim, Rovaniemi vale a pena, se não for mais, pelas paisagens :)
Podem comprova-lo pelas fotos :
Sem comentários:
Enviar um comentário